O que pacientes e famílias realmente querem no cuidado domiciliar?

Por: Lívia Bonfietti Franco – Publicado em 04 de Março de 2026 (New York, NY)

O que pacientes e familiares realmente valorizam quando recebem cuidado em casa? (e não são só habilidade técnicas)

Uma matéria recente publicada pelo Hospice News, trouxe dados interessantes sobre a percepção de consumidores norte-americanos em relação ao home-based care. Ao comparar esses achados com o cenário brasileiro, encontramos pontos em comum, e também diferenças importantes.

O que os consumidores dizem nos Estados Unidos?

De acordo com o artigo publicado em janeiro de 2026, os principais fatores que impactam positivamente a experiência de cuidado domiciliar são:

  • Educação clara para pacientes e familiares As pessoas querem entender o que está acontecendo, por que determinado procedimento é realizado e o que esperar do tratamento. Como sempre digo, educar pacientes e familiares ainda é o melhor caminho. Não há fiscal melhor de atendimento do que pacientes e familiares bem orientados sobre tudo… sim, TUDO…

  • Coordenação eficiente entre profissionais Equipes que se comunicam bem entre si e com a família transmitem segurança e confiança. Os profissionais precisam se conversar… levar pra casa a máxima do hospital que é de entender o que aconteceu no plantão anterior para garantir a qualidade da continuidade do cuidado.

  • Empatia e inteligência emocional Não basta competência técnica. A forma como o profissional se comunica e demonstra respeito faz toda a diferença. Educação, cordialidade, paciência, respeito, empatia e adaptação ao cuidado de acordo com cada diagnóstico e família.

  • Ajuda para navegar no sistema de saúde Pacientes valorizam orientação prática: agendamentos, encaminhamentos e integração com outros serviços. Saber o que precisa ser feito não só em casa, mas em qualquer momento, seja durante um exame, uma consulta médica ou uma internação… Entender o todo e não só o momento.

Em resumo: o cuidado ideal vai além do procedimento clínico. Ele envolve informação, organização e sensibilidade.

E no Brasil? O que observamos na prática?

Infelizmente, volto aqui com a mesma frase: precisamos falar mais sobre assistência domiciliar… Mas embora ainda existam menos ainda pesquisas focadas exclusivamente na “voz do consumidor” no Brasil, estudos e experiências ligadas à atenção domiciliar mostram tendências muito semelhantes.

Pesquisas envolvendo a Estratégia Saúde da Família indicam que pacientes e familiares valorizam:

  • Continuidade do tratamento Ter acompanhamento regular e consistente gera segurança. Podemos relacionar aqui a questão da coordenação eficiente entre profissionais citados na matéria da Hospice News.
  • Humanização do cuidado O vínculo com a equipe e o respeito à dinâmica familiar são frequentemente citados como diferenciais. Aqui, podemos correlacionar com a questão da empatia e inteligência emocional – no controle das emoções relacionadas ao dia a dia do cuidado.
  • Cuidado no ambiente familiar O conforto de estar em casa e próximo da família é percebido como um ganho importante na qualidade de vida. Diminuímos infecções e intercorrências, além de ser mais que provado que, paciente em casa, evolui muito mais do que aqueles que ficam no hospital.

Além disso, o crescimento de programas públicos como o Programa Melhor em Casa reforça a importância do cuidado domiciliar como estratégia de desospitalização e atenção centrada na pessoa.

Resumindo: Semelhanças que chamam atenção, é que mesmo com contextos de saúde diferentes, Brasil e Estados Unidos convergem em pontos fundamentais que são:

  • A importância da comunicação clara
  • A necessidade de coordenação entre profissionais
  • O valor da empatia
  • O desejo de manter o cuidado em um ambiente familiar

Ou seja, independentemente do país, as expectativas humanas são muito parecidas.

Mas onde ainda precisamos avançar no Brasil?

Enquanto nos Estados Unidos já existem pesquisas estruturadas focadas diretamente nas preferências do consumidor, no Brasil ainda há espaço para ampliar estudos que escutem sistematicamente pacientes e familiares.

Além disso, desafios como capacitação profissional, organização de serviços e padronização de práticas ainda impactam a experiência do usuário em algumas regiões.

O que podemos aprender com essa comparação?

Se existe uma lição clara, é esta:

Cuidado domiciliar não é apenas assistência técnica, é experiência.

É a soma de:

  • Informação acessível
  • Organização eficiente
  • Comunicação transparente
  • Profissionais preparados
  • E, principalmente, humanidade

À medida que o cuidado em casa se torna cada vez mais comum, ouvir pacientes e familiares deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade estratégica.

Por isso, se você está buscando uma empresa de assistência domiciliar, busque por empresas:

– que invistam em orientações desde antes da alta hospitalar (se ainda estiver a pessoa necessitada internada), ou se já estiver em casa, empresas que façam reuniões com os familiares afim de entender profundamente o cliente;

– que invistam em treinamentos contínuos para cuidadores;

– que deem estrutura como equipamentos e suporte para um bom atendimento;

– que se comuniquem de forma clara e objetiva.

Se você atua na área de cuidado domiciliar, gestão de serviços de saúde ou formação de cuidadores, vale refletir:

Sua equipe está entregando apenas serviço ou está entregando experiência?

Sobre a autora

Lívia Bonfietti Franco é consultora de educação continuada e pesquisadora Vivantt sobre a experiência do paciente, enfermeira graduada pela Universidade Anhembi Morumbi, Pós-graduada em Enfermagem em Cardiologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e Instrutora de Basic Life Support e Advanced Cardiac Life Support de acordo com as diretrizes da American Heart Association (AHA). Pós-graduada em Gestão de Serviços de Saúde pela UNIITALO atualmente atuando como Analista de Desenvolvimento de Talentos Sênior no UnitedHealth Group Brasil (New York, NY)

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